Inovação não é tecnologia, é método.

Sua empresa inova ou só compra ferramenta? Uma pesquisa global da PwC mostrou que Inovação nas empresas é principal preocupação dos investidores. O estudo foi realizado com 1.074 investidores de 26 países. Segundo o levantamento, mais de 45% dos entrevistados afirmaram que a estratégia de inovação é o primeiro ponto observado ao analisar um negócio. […]

Juliana Munaro
Juliana Munaro

· 6 min de leitura

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Sua empresa inova ou só compra ferramenta?

Uma pesquisa global da PwC mostrou que Inovação nas empresas é principal preocupação dos investidores. O estudo foi realizado com 1.074 investidores de 26 países. Segundo o levantamento, mais de 45% dos entrevistados afirmaram que a estratégia de inovação é o primeiro ponto observado ao analisar um negócio. No Brasil, esse número sobe para 56%. Inteligência Artificial ficou em segundo lugar, sendo a preocupação de 42% dos investidores.

Esse resultado mostra uma perspectiva interessante. A tecnologia não é fundamental se não for usada para trazer resultados concretos.

Inovação é motor de crescimento. Sem ela, empresas não prosperam, não há desenvolvimento econômico. E inovação não é tecnologia, nem simplesmente mais um produto novo. Inovação com resultado precisa de método, que defina que projeto é relevante para operação da empresa, o que será priorizado e também como conseguir recursos para inovar sem comprometer o fluxo de caixa da empresa.

Inovar é mais do que digitalizar

Grande parte da conversa sobre inovação ficou refém da pauta tecnológica. A pergunta “você está inovando?” virou adoção de tecnologia e, agora de Inteligência Artificial.

Mas inovação é o que gera valor novo em qualquer dimensão do negócio. Pode ser no produto, no processo, no modelo comercial e, até mesmo, no posicionamento.

Tecnologia – ou a Inteligência Artificial – é o meio, não o objetivo principal. Em muitos casos, a inovação mais rentável de uma empresa não tem uma linha de código.

O que essas movimentações têm em comum não é tecnologia. É processo de decisão. Alguém enxergou o problema, testou a hipótese, mediu o resultado, incorporou ou descartou. Esse ciclo tem nome e é exatamente o que os investidores estão pedindo para ver: governança de inovação.

Governança não é palavrão de grande empresa

Aprendi com José Walter da Silva, da VALORNOVO, especialista em governança de inovação há mais de 20 anos, uma frase que mudou meu jeito de olhar para esse assunto: inovação sem governança vira gasto, não investimento.

Muitas empresas, inclusive aquelas que não se consideram inovadoras, já fazem inovação. O problema é que ela está espalhada pelos departamentos, escondida nas rotinas, dependente da boa vontade de quem grita mais alto na reunião. Quando isso acontece, o esforço existe, mas o resultado some.

Governar é o que tira a inovação dessa zona cinzenta. E não exige a estrutura de uma multinacional. Exige cinco coisas simples:

  1. Direção clara. A inovação serve à estratégia, não substitui ela. Antes de testar ferramenta nova, é preciso saber onde a empresa quer chegar nos próximos três a cinco anos — e o que falta no portfólio atual para chegar lá. Sem isso, qualquer tecnologia parece urgente.
  2. Decisão coletiva e periódica. Em vez de decidir inovação no susto ou no impulso de um sócio, criar um ritmo fixo de reuniões — pode ser uma a cada dois meses — em que as iniciativas são apresentadas, comparadas e priorizadas. Decisão fora do calendário vira política interna. Decisão dentro do ritmo vira método.
  3. Capital de baixo custo. PME que paga inovação só com fluxo de caixa próprio nunca vai escalar. FINEP, BNDES e linhas de subvenção existem exatamente para empresas testarem hipóteses sem comprometer o caixa operacional. Quem governa, capta. Quem só executa, paga juros de mercado.
  4. Acompanhamento que mede, não vigia. Cada projeto precisa de cronograma, indicadores e ponto de revisão. Não para controlar quem trabalha, mas para saber quando seguir, quando ajustar e quando parar. Sem isso, projeto morto continua consumindo tempo e dinheiro porque ninguém teve a coragem de oficializar a morte.
  5. Cultura que aceita o erro com critério. Inovação envolve incerteza. A diferença entre cultura inovadora e cultura caótica é o critério. Errar testando uma hipótese clara, com método, é parte do processo. Errar porque ninguém combinou o que estava sendo testado é só prejuízo.

Governar inovação exige critério. Saber o que é problema legítimo para resolver. Definir como testar antes de escalar. Ter clareza de quem decide continuar ou parar. Medir com número, não com sensação.

Com essa clareza, é possível, inclusive, usar recursos com inteligência, acessando dinheiro mais baratos através de agências de fomento, como a FINEP. Para isso é preciso planejamento, organização e entender como apresentar projetos.

Vale para dinheiro privado também. Cliente corporativo exige processo. Banco pede histórico. Investidor-anjo pergunta como a decisão foi tomada. A empresa que inova por acaso, sem método, não consegue reproduzir, não consegue explicar, e não convence quem precisa de evidência.

É importante olhar para IA, mas não como uma ferramenta.

A IA é poderosa. E agora, acessível e aplicável em quase qualquer frente da operação. Bem usada, libera tempo de equipe, reduz erro repetitivo, acelera análise. Mal-usada, queima caixa, cria dependência e disfarça ausência de estratégia.

Um estudo feito pelos especialistas Chengwei Liu, Jerker Denrell, Jerry Luukkonen e Nick Chater, publicado na Harvard Business Review, mostrou que, embora a produtividade tenha aumentado, a inovação estagnou silenciosamente.

O problema não é a Inteligência Artificial. Os próprios pesquisadores responsáveis pelo estudo indicam que ao realizar verificações e ajustes, ao invés de simplesmente aceitar os resultados produzidos pela IA, é possível aprender e produzir novos conhecimentos.

Por isso, a pergunta certa não é “você usa IA?”. É “o que você quer fazer e o que vai delegar para ela?”.

Quem governa a inovação sabe o que quer. Usa IA para aumentar eficiência, melhorar produtividade e alcançar receitas mais altas e margens melhores. Quem não governa usa IA como camuflagem. Parece que inovou, mas só automatizou o que já fazia.

Cinco perguntas antes da próxima ferramenta

Antes de adotar qualquer coisa nova — IA, software, processo, canal — responda:

  1. Qual é o problema real que estou tentando resolver?
  2. Como vou medir se funcionou? Número, prazo, critério de sucesso.
  3. O que vou parar de fazer para liberar tempo e dinheiro para isso?
  4. Quem decide continuar ou descartar, e em que momento?
  5. Onde essa decisão fica documentada?

Se você não consegue responder as cinco, não é hora de adotar. É hora de pensar.

Inovar não é ter ferramenta nova. É ter clareza sobre o que quer mudar e método para provar que mudou. O investidor já sabe disso. A PME que perceber agora capta melhor, vende melhor, decide melhor.

Juliana Munaro

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