Nenhuma norma vai cuidar da sua empresa por você
A NR-1 entrou em vigor e colocou a saúde mental na lei. Mas norma vira documento — cultura é escolha. E a conta do adoecimento chega até quem está na cadeira de fundador. Por Juliana Munaro A NR-1, diretriz base do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil que estabelece as regras gerais, os campos […]
A NR-1 entrou em vigor e colocou a saúde mental na lei. Mas norma vira documento — cultura é escolha. E a conta do adoecimento chega até quem está na cadeira de fundador.
Por Juliana Munaro
A NR-1, diretriz base do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil que estabelece as regras gerais, os campos de aplicação e os princípios de Segurança e Saúde no Trabalho, passou a valer. Na prática: estresse, sobrecarga, metas abusivas, assédio e burnout entram agora, por obrigação, no mesmo programa de gestão de riscos que sempre tratou de ruído, produto químico e trabalho em altura. A empresa que adoece o time pode ser autuada.
É excelente que saúde mental seja coloca em pauta. A norma coloca no papel – e na legislação — algo que já devia ser óbvio, trabalho não deveria adoecer ninguém.
Mas um ponto nesse movimento me chama atenção, o fato de sempre criarmos um curativo. Aparece um problema grande e a resposta vem em forma de regra, selo, programa. O curativo protege, organiza, dá prazo. O que ele não faz é tratar a ferida que está embaixo. É como aconteceu com o ESG. Empresas preocupadas com meio ambiente, questões sociais e governança ganhou forma na pandemia, mas agora mal se fala no tema e, inclusive algumas iniciativas desapareceram.
A verdade é que a NR-1 não vai acabar com as empresas que adoecem pessoas. Quem já cuidava não esperou a fiscalização para começar. E quem não cuida vai aprender, primeiro, a preencher o PGR direitinho para não tomar multa. A norma vira documento e a cultura segue igual.
A pergunta que me interessa não é “como a minha empresa se adequa à NR-1”. É outra: que tipo de empresa eu quero construir?
O dilema ou cuidamos de pessoas ou temos lucro ainda persiste. Mas ele não é real.
Gente adoecida não entrega, afastamento custa, rotatividade alta custa, e o time que aparece só de corpo presente custa ainda mais. Esse é o prejuízo mais invisível presente na maioria das empresas.
Uma empresa que cuida não está abrindo mão de resultado. Está protegendo a única coisa que produz resultado: pessoas.
Nessa mesma discussão podemos acrescentar o debate da escala 6X1. Eu sou a favor de repensar a escala, mas do jeito que a debate é colocado, a redução também me parece um pouco curativo. Não dá para tratar todo setor igual e, talvez o ponto mais importante, a própria ideia de medir trabalho por hora está envelhecendo rápido. Com o avanço da inteligência artificial, boa parte do que fazemos vai deixar de ser “quantas horas você passou na cadeira” para virar “o que você resolveu”. Brigar só pelo número de dias na semana pode ser brigar pelo eixo errado. O eixo certo é outro: esse trabalho cabe numa vida? Ou é a vida que precisa caber no trabalho?
Tem ainda uma parte dessa conversa que quase ninguém puxa. Empresa que cuida cuida de todo mundo, inclusive de quem empreende.
A gente romantiza o dono que não dorme, que carrega tudo nas costas, que não tira férias há três anos. Mas o empresário também adoece. O empreendedor também tem ansiedade, também chega no limite, também tem o seu próprio burnout, só que não existe PGR para preencher o dele. Cuidar de verdade é quando o cuidado também sobra para quem está na cadeira de fundador.
É por isso que é preciso repensar a métodos de gestão, reelaborar a forma como fazemos negócios. Me parece que, com os números crescentes de profissionais com burnout e de pessoas consumindo medicamentos para tratar algum distúrbio da saúde mental, a maneira que estamos conduzindo as organizações está um tanto equivocada.
Uma cadeia que adoece desde o trabalhador até o empreendedor tem algo mais profundo que precisa ser analisado e transformado.
Não há norma que faça isso. Isso é escolha. É o tipo de empresa que a gente decide ser.
E é dessa empresa que queremos falar no Gente que Empreende.
Gente que Empreende. Gente que faz diferente.
