Por que mulheres qualificadas estão migrando para o empreendedorismo — e o que isso revela sobre o mercado de trabalho brasileiro
Todo 8 de março a gente vê aquelas campanhas celebrando o empreendedorismo feminino. “Mulheres poderosas”, “donas do próprio destino”, “independência financeira”.
E tudo isso é verdade. Mas tem outro lado dessa história que a gente precisa olhar com honestidade.
Mulheres são 51,7% da população brasileira em idade ativa. Ou seja: somos maioria. Mas quandovocê olha o empreendedorismo, a gente representa apenas 34,1% dos donos de negócio no país.
Isso é dado do Sebrae. E esse número praticamente não mudou nos últimos 10 anos.
Então me pergunto: por que, sendo maioria na população, somos minoria no empreendedorismo?
E a resposta não é falta de ambição. Não é falta de qualificação. Aliás, 1 em cada 3 mulheresempreendedoras tem ensino superior. Somos, em média, mais escolarizadas que os homens empreendedores.
O problema está nas barreiras invisíveis que empurram mulheres qualificadas para fora do mercado formal.
Eu vejo isso toda semana nos meus atendimentos. Mulheres com MBA, com experiência sólida, com currículo impecável — que foram demitidas depois da licença-maternidade. Ou que pediramdemissão porque a empresa não oferecia flexibilidade pra buscar filho na escola. Ou que cansaram de bater no teto de vidro e decidiram queera melhor empreender.
Essas mulheres não escolheram empreender porque sonhavam com liberdade. Elas foramempurradas pra fora do mercado formal por uma estrutura que não acomoda a realidade feminina.
E aí está o paradoxo: a gente celebra o crescimento do empreendedorismo feminino como sefosse só conquista. Mas parte significativa desse crescimento é mulher saindo do mercado formalporque não tem alternativa.
Não estou dizendo que empreender é ruim. Muito pelo contrário. Eu trabalho com empreendedoras,acredito no potencial delas, vejo transformações incríveis acontecendo.
Mas a gente precisa ser honesta sobre os motivos.
Quando uma mulher empreende porque quer, porque identificou uma oportunidade, porque tempaixão por aquilo — isso é empoderamento.
Quando uma mulher empreende porque foi demitida aos 45 anos e ninguém mais contrata, ouporque não consegue conciliar maternidade com trabalho formal, ou porque está há 5 anos tentando promoção e vendo homens menos qualificados passarem na frente — isso não é empoderamento. É sobrevivência.
E sobrevivência também é válida. Mas vamos chamar pelo nome certo.
O que me incomoda é o discurso que romantiza o empreendedorismo feminino sem questionarpor que tantas mulheres qualificadas estão saindo do mercado formal.
Por que empresas ainda demitem mulheres grávidas (veladamente, claro)? Por queflexibilidade de horário é “benefício” e não padrão?
Por que mulheres precisam escolher entre carreira e maternidade?
Por que, mesmo empreendendo, ganhamos 24% a menos que homens empreendedores?
Essas perguntas importam.
Porque enquanto a gente não mudar a estrutura, o empreendedorismo feminino vai continuar sendo, em grande parte, uma solução individual pra um problema coletivo.
E olha, eu não estou aqui pra desencorajar ninguém. Se você empreende, se está pensando emempreender, se saiu do mercado formal e encontrou no empreendedorismo uma forma dereconstruir sua vida — eu te aplaudo.
Eu trabalho justamente pra que essas mulheres cresçam, tenham clareza, estruturem seusnegócios, faturam bem e conquistem a sustentabilidade que merecem.
Mas neste 8 de março, além de celebrar, eu quero questionar.
Quero que a gente olhe pros números e pergunte: por que somos 51,7% da população e só 34,1% dos empreendedores?
Quero que a gente discuta por que mulheres altamente qualificadas estão deixando empregosformais pra empreender — não por sonho, mas por falta de opção.
Quero que a gente pare de romantizar a sobrecarga e comece a exigir estrutura.
Porque empreendedorismo feminino é conquista, sim. Mas também é sintoma de um mercado detrabalho que ainda não aprendeu a acomodar a realidade das mulheres.
E até a gente mudar isso, vamos continuar celebrando avanços que deveriam nos incomodar.
Feliz Dia Internacional da Mulher. Que a gente possa, um dia, empreender por escolha — não por falta dela.
Verusca Carósio é orientadora de negócios com mais de 22 anos de experiência em comunicação e marketing, especializada em apoiar pequenas empreendedoras e profissionais liberais. E colunista do Gente que Empreende.
